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Cabeça Ruminante

Capa de O Fio de Presas

Os primeiros raios da manhã, capazes de romper pelos estores mal fechados, aqueciam ao de leve o rosto de Lúcia.

O quarto, antes escuro, adquiria agora um tom amarelado, só visível nas manhãs de verão, como era o caso. Mais um dia estava a começar.

Ao sentir o sol rosar o seu semblante, Lúcia despertou. Antes, franziu o rosto, como se o tentasse contrair, como quem tenta apanhar um inseto com as sobrancelhas. Acompanhou o gesto, com o habitual grunhido de quem não quer, de todo, acordar.

No entanto, era inevitável que assim fosse. Abriu os olhos e elevou a cabeça, pesada, mantendo o resto do corpo aconchegado debaixo dos lençóis. O seu objetivo era observar o quarto — quase todo iluminado — desde a janela à parede oposta. Preparava-se para um longo suspiro, quando se lembrou de que era sábado: «O melhor dia da semana para acordar!», segundo ela.

Depois de avaliar a iluminação do quarto e recordar-se de que era sábado, Lúcia permaneceu na cama. Agora, com a cabeça confortavelmente deitada na sua almofada e os olhos focados no teto, podia pensar nas tarefas que tinha de fazer naquele fim de semana.

«Bom, vejamos... sábado…», pensou. «A minha mãe faz hoje anos. Por isso, não me posso esquecer de ir tomar o pequeno-almoço com ela.»

Todos os anos, no aniversário da mãe, a tradição era passar o desjejum da noite com ela. A Sofia, mãe de Lúcia, detestava celebrar o seu nascimento, nunca queria que houvesse festa, ou um grande jantar, para comemorar tal dia. A sua filha, porém, fazia questão de celebrar a data e, mais importante, de ser a primeira a parabenizá-la, algo desde os tempos de criança, quando mãe e filha ainda habitavam debaixo do mesmo teto. Era sempre a primeira a romper pelo quarto dos pais, de manhã, alertando a mãe para a data, preparando-lhe a primeira refeição. Fazia-lhe um pequeno-almoço especial todos os anos — fora a forma que arranjara de agradar à preguiça matinal da mãe. Agora, viviam separadas. Apesar disso, Lúcia não queria abandonar as suas tradições, pelo que convidava a mãe todos os anos para um pequeno-almoço especial, mas que já não era preparado por si.

“E depois? Hum… Depois tenho de ir às compras com a Mariana», continuou. «Se calhar, aproveito e convido-a para almoçar aqui em casa... Mais? Mais? Ah! Também não me posso esquecer de que amanhã vou ao cinema com o Tiago… E acho que é só.»

Com a agenda revista, chegara o derradeiro momento. Estava na hora de se levantar, até porque tinha o compromisso com a sua mãe já pela manhã! Virou-se, então, para o lado da cama onde tem a mesa de cabeceira; nela, além de um candeeiro rosa e de design minimalista, de um relógio digital com linhas direitas e do seu telemóvel, consta também um suporte para o seu fio predileto. Todos os dias olhava para ele. O fio reluzia de cada vez que os raios quentes da manhã embatiam nele. Como de costume, ficou alguns segundos a apreciá-lo. Recordava-se do dia em que ele viera parar às suas mãos.

***

Pela aparência, era apenas só mais um fio, normalíssimo. Para Lúcia, não era um fio qualquer.

Fora-lhe entregue pela mão do avô, deitado numa cama de hospital, no leito da sua morte. Aquele colar não possuía o toque gelado e distante da prata, mas, sim, o calor e o toque das mãos trémulas do seu adorado avô. Dar-lhe aquela joia fora, provavelmente, a última coisa que ele fizera em vida.

Lúcia tinha ficado surpreendida. O avô, que se encontrava numa cama de hospital, vestia uma bata larga e reveladora — logo, sem bolsos. Isso significava que ele mantivera o fio nas suas mãos desde que entrara na ambulância, na noite anterior. Ou então, já no hospital, alguém lhe entregara a joia. Na verdade, Lúcia não conseguia perceber como o fio fora parar às mãos do avô.

Numa tentativa rápida, que se revelou lenta e frágil atendendo ao seu estado de saúde, o avô Fernando passou-lhe o fio para as mãos. Não adiantou nada, não comentando nem verbalizando o porquê daquela oferta. Fixou o olhar na neta, como se soubesse que aquela seria a última vez que a veria. Lúcia, debruçada sobre a maca, limitou-se a aceitar a prenda e a corresponder ao olhar do seu débil avô.

Enquanto a troca de olhares durou, ficaram de mãos dadas, sempre com o colar no interior. De seguida, Lúcia sorriu-lhe, fechou a mão que continha o fio, para que ninguém visse, largando-o no bolso do casaco. A despedida emotiva continuou mais alguns minutos.

Nessa tarde, quando regressou a casa, Lúcia ainda sentia o peso no peito e os olhos a arder. Assim que atravessou a porta, recebeu uma chamada da sua mãe. Era a notícia que aguardava, embora não a quisesse ouvir: «Querida, o… o avô acabou de falecer». Depois de se apoiarem mutuamente e combinarem os próximos passos, Lúcia desligou a chamada.

Atirou-se para o sofá da sala, ainda com o casaco e a mala na mão — mala essa que segurou firme durante toda a chamada; não a chegara a pousar. Largou-a finalmente ao seu lado, enterrou o corpo o mais que pôde nas almofadas e suspirou fundo.

Nos últimos tempos, desde que o avô adoecera, ia recordando todos os momentos felizes que tinham passado juntos, como que a preparar-se para este dia. Derramada e sem forças, assistia a um filme mental, saboreando o sal quente que escorria dos seus olhos. A última montagem correspondia aos últimos minutos que tinham acabado de vivenciar juntos. Lembrou-se do fio que guardara no bolso.

Agora, sozinha em casa, já podia analisar o colar com minúcia. Pôs a mão no bolso e retirou-o. Ainda com os olhos marejados, abriu o fio na sua mão, movimentou-o com o dedo indicador para o desembaraçar e apreciar a última prenda do avô. Era uma joia simples, mas digna. Aparentava ter tamanho médio, a corrente fina, muito reluzente, uma medalha simples, um pendente com um diamante, ou algo igualmente brilhante; parecia ser novo. Talvez o tivesse comprado de propósito para si. Com este pensamento, Lúcia esboçou um sorriso.

As lágrimas que derramava adicionavam brilho àquela prenda.

Pegou no colar e esticou-o à sua frente. Apercebeu-se de que um nó se tinha formado. Talvez já viesse assim das mãos do seu avô, ou talvez o nó se formara quando o fio se encontrava solto no bolso do seu casaco. Ainda enterrada no sofá, tentou desfazer o nó com cuidado, mas sem sucesso.

Desistiu. Não importava. Só o facto deste objeto representar uma memória do seu avô a deixava feliz.

Cansada daquele turbilhão de emoções, deu por si a adormecer no sofá, aconchegada e com o colar nas suas mãos. Foi como se dormisse uma sesta, de mãos dadas com o seu avô.

***

Largos meses depois do seu luto, numa manhã de sábado, Lúcia olhou para o fio e reparou que ele ganhara outro nó. Estranhou.

Gostava de admirar o colar pela manhã, assim como à noite, quando o pousava no suporte adequado. Quase que podia jurar: Lúcia tinha quase a certeza de que o fio, na noite anterior, apenas continha um nó.

Estando ele cuidadosamente pousado no seu pedestal, onde permanecera todas as noites, como era possível o fio ter-se emaranhado de novo? Teria sido ela, ao retirá-lo do seu pescoço e ao pô-lo no seu lugar de repouso?

«Mas eu tiro e ponho-o sempre com tanto cuidado. E tenho a certeza de que ontem, quando olhei para ele, só tinha um nó», pensou.

Seria possível que uma brisa fantasmagórica, na noite anterior, o fizera mexer, a ponto de se enrolar?

«A única janela que tenho no quarto está fechada, para que não entre o calor da noite algarvia. Não foi uma brisa que o embaraçou.»

Teria sido o Leo, o seu amigo felino ninja, felpudo e delicado? «Impossível. Se ele tivesse estado aqui, decerto haveria no mínimo um ou dois tufos de pelo branco. Aqui em cima e à volta da mesa de cabeceira não há nada.»

Enquanto realizava uma investigação preliminar, o seu telemóvel indicava as sete horas. Tinha obrigatoriamente de se levantar. Como não pretendia atrasar-se para o pequeno-almoço de aniversário, interrompeu a sua análise e levantou-se num ápice.

Desligou o alarme e correu em direção ao chuveiro. Durante o duche rápido, pareceu-lhe ouvir o telemóvel tocar. O som intenso da água do chuveiro, no entanto, abafava o toque. «Bolas. Esqueci-me de desligar o alarme», pensou. De banho tomado, com o cabelo a pingar, o corpo envolto numa toalha fofa e azul, correu para o quarto, a fim de desligar o alarme.

Ao desbloquear o ecrã, reparou nas notificações e viu duas recentes chamadas do seu pai. Não demorou a ligar-lhe de volta.

— Estou? Pai?

— Olá, filha — respondeu-lhe o pai, com uma voz sumida e quase inaudível.

— Então, pai, que voz é essa? Está tudo bem?

— Receio que não, filha... A tua... A tua mãe... Filha, não sei como te dizer isto.

O pai prosseguiu, dando-lhe uma notícia que Lúcia não esperava ouvir naquela manhã, nem tão cedo na sua vida. A mãe tinha morrido. Um dia horrível, não só pelo acontecimento em si, mas também pelo modo repentino e desprovido de sentido. Na cabeça de Lúcia, não cabia o conceito de morte repentina, ou de morrer de um dia para o outro, sem estar doente, sem nada. Não fazia nenhum sentido.

No entanto, não havia volta a dar. Era impossível contrariar os acontecimentos que se iam desenrolando à sua volta, pelo que teve de os aceitar. Claro que levou o seu querido colar ao não tão querido funeral. Ainda se lembrava de ver descer o caixão, encostada ao seu pai, ambos em pranto, de massajar os nós do seu colar, como se se tratasse de um rosário e estivesse a rezar uma Ave Maria.

 

Continua na Parte II.

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